Gilberto Gil trocou as arenas pelo palco do Coliseu dos Recreios e levou a Lisboa, na noite de sábado, 10 de outubro, “Amor Azul”, a ópera-canção que criou com o maestro italiano Aldo Brizzi. A sala esgotou para a única apresentação europeia da obra este ano, exclusiva de Lisboa, uma experiência inédita na carreira do cantor, que continua a surpreender o seu público mais fiel.

Vestido em tons de branco e creme, Gilberto Gil foi recebido com uma forte ovação do público quando entrou em palco.

Uma ópera para Krishna e Radha

“Amor Azul” é uma ópera-canção em dois atos, inspirada no “Gita Govinda”, poema clássico da literatura indiana escrito no século XII pelo poeta Jayadeva, que narra o amor entre Krishna e Radha. São 40 canções inéditas que juntam a música popular brasileira ao canto lírico.

A obra estreou em versão de concerto em Paris, em dezembro de 2022, com a Orquestra Filarmónica da Radio France. Chegou ao Brasil em 2024, encenada na Sala São Paulo, e passou depois por Salvador.

Para o Coliseu, Gil e Brizzi prepararam uma versão alargada e de grande escala, que em Lisboa se desdobrou em 47 partes. Além do encontro entre a canção brasileira e a música erudita, a partitura vai buscar sonoridades afro-brasileiras e o lado místico da tradição indiana de onde nasce a história.

O próprio Gil tem descrito a ópera como um desafio, por ter regras e estruturas próprias, muito diferentes das da canção popular.

A noite no Coliseu

No Coliseu, Gil esteve acompanhado pelo Núcleo de Ópera da Bahia, pela Lisbon International Symphony Orchestra e pelo Coro Phydellius, todos sob a direção musical de Aldo Brizzi. Rodeado por orquestra, coro e cantores líricos, o músico nunca perdeu o seu lugar no centro do palco, e o resultado foi uma ponte entre dois mundos, o da música popular do Brasil e o da grande tradição clássica da Europa.

Foi um Gilberto Gil diferente do que se viu meses antes no Porto e em Cascais, na digressão “Tempo Rei”, que apresentou como a despedida das grandes arenas e estádios.

O formato pede ao público uma escuta diferente da de um concerto de canções: aqui há enredo e narrativa, e a voz de Gil divide o palco com solistas de formação lírica.

“Amor Azul” funciona, no fundo, como um encontro de três continentes. Uma história nascida na Índia, contada com os instrumentos e as formas da ópera europeia e atravessada por raízes afro-brasileiras. É uma ambição que combina com o percurso de um artista que, enquanto ministro da Cultura, fez da diversidade cultural uma bandeira, e que continua a usar a música para pôr culturas distantes a conversar.

A ligação com Portugal

A ligação de Gilberto Gil a Portugal vem de longe: passou por Lisboa em 1969, a caminho de Angola, e reforçou-a no início dos anos 70, durante o exílio em Londres. Hoje, defende que a partilha cultural aproxima os dois países e responde à intolerância.

“Amor Azul” foi mais um capítulo dessa relação. Num Coliseu cheio, o homem do Tropicalismo, antigo ministro da Cultura e membro da Academia Brasileira de Letras provou que, aos 84 anos, ainda procura caminhos novos, e que o público português continua disposto a segui-lo.

Fotos & Texto: Pedro Barrelas

Deixe uma Resposta

Trending