Marina Sena estreou-se em nome próprio no Coliseu dos Recreios no domingo, 25 de outubro, com uma sala cheia a cantar mais alto do que ela e o Brasil a votar do outro lado do Atlântico. A apresentação de Coisas Naturais em Lisboa fez-se de dança, coro e, já perto do fim, de uma celebração política.

A cantora de Taiobeiras, que fez 30 anos em setembro, chegou à capital um dia depois de passar pelo Coliseu do Porto e cinco meses depois de ter sido um dos nomes fortes do Coala Festival, em Cascais. A última vez que tinha tocado numa sala lisboeta foi em 2023, no Capitólio, ainda na fase de Vício Inerente.
Do disco novo aos êxitos de sempre
O alinhamento contou a história da noite melhor do que qualquer discurso. A primeira parte apoiou-se no disco mais recente, com Marina de coroa e roupa dourada, e deixou que Numa Ilha e Coisas Naturais medissem a temperatura da sala. A resposta foi imediata e ensurdecedora, com a plateia a assumir o papel principal logo nos primeiros refrões.
O primeiro grande piscar de olho aos fãs de longa data chegou cedo, num encadeado de Me Toca, Que Tal e Pelejei que recuou aos primeiros anos da carreira a solo. Seguiram-se Combo da Sorte e Saí Para Ver o Mar, antes de um dos momentos mais curiosos do concerto. Em Doçura, tema que gravou com o grupo espanhol Çantamarta, foi o público a tomar conta dos versos em castelhano, sem precisar de qualquer ajuda.

A meio, o espetáculo ganhou corpo. Tá Quente fez sorrir uma sala abafada, onde o calor já se tinha tornado tema de conversa, e Lua Cheia manteve a dança sem pausas. Em Dano Sarrada, a câmara que alimentava os ecrãs em direto passou de ferramenta a personagem, com o operador a entrar em cena e a ser recebido como uma estrela.
A reta final foi desenhada para não deixar ninguém parado. Depois de Sensei, Pra Ficar Comigo e de uma passagem por Ouro de Tolo, de Raul Seixas, vieram os temas que toda a gente esperava. Por Supuesto, a canção que a lançou em 2021, e Voltei Pra Mim foram cantadas de uma ponta à outra do Coliseu, e Mágico preparou o terreno para o fecho com Carnaval e Desmitificar.
Com o Brasil lá fora
O calendário acabou por pesar mais do que a música nos dias anteriores. A 25 de outubro, os brasileiros voltavam às urnas para decidir a presidência, e a agenda europeia de Marina tinha-a colocado longe de casa precisamente nesse fim de semana. A imprensa brasileira deu eco a uma publicação que se tornou viral no X, assinada por uma fã que lamentava sobretudo os votos perdidos pela equipa técnica em digressão. A cantora respondeu que lhe custava não existir alternativa para quem está no estrangeiro em trabalho.

Na noite do concerto, a poucos passos do Coliseu, o Rossio foi palco de manifestações pacíficas, e muitos espectadores chegaram com a noite eleitoral na cabeça e no telemóvel. O verde e amarelo dominava a plateia, e o apoio a Lula fez-se ouvir antes mesmo de as luzes se apagarem.
Marina nunca escondeu de que lado está e, já perto do fim, quando se aproximou das primeiras filas para assinar autógrafos, festejou a vitória de Lula de joelhos e com o «L» erguido. Durante o resto da noite, porém, foi a festa que falou mais alto.
Uma sala só dela
O que Lisboa confirmou foi uma mudança de escala. Em maio, Marina Sena partilhava cartaz num festival de verão, em outubro encheu sozinha um dos palcos mais emblemáticos da cidade, perante um público português e brasileiro que conhecia o repertório de cor, dos temas novos aos mais antigos.

As colaborações com Anitta, Luísa Sonza, Pedro Sampaio ou Gloria Groove ajudaram a alargar o alcance da cantora, mas no Coliseu ficou claro que quem ali estava vinha por ela. A digressão segue para Amesterdão, a 29 de outubro, e Londres, no dia seguinte.
Texto e Fotos: Pedro Barrelas




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