Filipe La Féria voltou ao género que o tornou célebre. Mil Vezes Revista estreou-se a 8 de outubro no Teatro Politeama, em Lisboa, com Marina Mota e Joaquim Monchique à cabeça de um elenco de mais de quatro dezenas de artistas, e fica em cena até dezembro.

O interesse do público antecipou-se à estreia. Antes de o pano subir pela primeira vez, a produção já tinha vendido mais de oito mil bilhetes. Para o encenador, que soma 62 anos de vida no teatro, trata-se de um dos trabalhos mais importantes da carreira, a que diz ter dedicado tudo, incluindo os próprios recursos financeiros.
Três horas a rir do país
O espetáculo divide-se em duas partes e prolonga-se por cerca de três horas, numa sucessão de quadros que vai da homenagem à própria revista à portuguesa até à sátira política e aos temas da atualidade. Quem conhece o trabalho de La Féria reconhece a fórmula, que mistura o humor do Parque Mayer com a escala e o brilho do music-hall, entre plumas, lantejoulas, coreografias de conjunto e uma orquestra ao vivo dirigida pelo maestro Miguel Teixeira.

Como manda a tradição do género, ninguém escapa. O encenador adiantou que o Presidente da República, o primeiro-ministro e várias figuras da oposição são evocados em palco, e que a sátira atravessa fronteiras para chegar a Donald Trump e Vladimir Putin. A ideia, explicou, é pôr o país a rir de si próprio, do lado luminoso ao mais sombrio, e mandar o público para casa mais leve num tempo que considera assustador.
A nova Lisboa também está no alvo. Num dos quadros, o espetáculo põe Joaquim Monchique ao volante de um tuk-tuk, a circular por uma cidade transformada pelo turismo. Noutro momento, o ator veste a pele de José Castelo Branco, uma das figuras mais mediáticas e controversas da atualidade portuguesa.

A componente visual tem uma assinatura inesperada. Joana Vasconcelos colaborou na cenografia com elementos inspirados no imaginário dos bairros populares lisboetas e na estética da revista, e a sua obra Coração La Pasionaria está exposta no salão nobre do Politeama durante a temporada. A artista acaba, ela própria, por ser homenageada e também visada pelo humor do espetáculo. Parte dos cenários foi criada com recurso a inteligência artificial.
O regresso dos reis da revista
O cartaz é uma das grandes armas da produção. Marina Mota, a quem La Féria chama rainha da revista, revisita algumas das personagens que marcaram a sua carreira, num número em que chega a contracenar em vídeo com o próprio encenador. Joaquim Monchique, que o criador elogia pela ligação que estabelece com a plateia, carrega boa parte do humor da noite. Ao lado deles, Paula Sá assume os momentos mais intimistas e emotivos, e Miguel Dias junta a voz e a presença de palco a um elenco de atores, cantores e bailarinos. Entre os mais jovens destaca-se Teresa Zenaida, que o público conheceu como Lúcia no musical Fátima.

Mil Vezes Revista marca o regresso de Filipe La Féria a um território que conhece como poucos. Foi com a revista, a partir de Passa Por Mim no Rossio, que construiu a fama, e o género voltou a ocupá-lo em títulos como Grande Revista à Portuguesa e Portugal à Gargalhada. Também Marina Mota e Monchique voltam a uma casa que conhecem bem, o que dá ao espetáculo um ar de reencontro.
Texto e Fotos: Pedro Barrelas




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