A vila de Cabrela, no concelho de Montemor-o-Novo, distrito de Évora, recebeu, entre 25 e 27 de setembro, a quarta edição do Festival Alentejo Heritage, que se realiza na localidade desde 2023.
A associação local Lar Doce Ler tem assumido um papel importante na dinamização cultural da região, através da promoção de iniciativas que procuram aproximar a população da leitura e de diferentes manifestações artísticas, numa freguesia com menos de 510 habitantes. Os associados, que participam também como voluntários, foram responsáveis por mais uma edição do festival na vila de Cabrela. Este ano, o evento teve como foco o encontro cultural entre Portugal e Brasil.

Separados por um oceano, mas unidos pela língua e por uma história que atravessa vários séculos, Portugal e Brasil partilham diferentes expressões culturais, presentes na arte e na gastronomia. Em localidades mais remotas, a apresentação destas manifestações permite criar contacto com outras tradições e formas de expressão, contribuindo para o conhecimento e valorização da diversidade cultural.
Ao longo dos três dias, o fado e o samba marcaram presença nas ruas da vila alentejana. A abertura ficou a cargo da fadista portuguesa Cristina Clara, que apresentou um concerto intimista e pouco convencional. Durante cerca de uma hora e meia, os cabrelenses puderam ouvir fado e choro brasileiro, interpretados pela artista e pelos seus músicos, Pedro Loch, na guitarra clássica, e Edu Miranda, no bandolim. O concerto aconteceu a partir de uma varanda no centro de Cabrela, sob o nome “Uma Varanda para o Atlântico”, colocando em diálogo duas tradições musicais ligadas a Portugal e ao Brasil.

A noite prosseguiu com o trio “O Samba”, que atuou no Largo Pascoal Coelho, onde apresentou uma roda de samba. A atuação foi recebida de forma positiva pelo público, que acompanhou a música e participou no ambiente festivo criado no largo. No mesmo espaço estiveram, durante os três dias do evento, várias bancas com comida tradicional brasileira e portuguesa, permitindo aos visitantes conhecer também diferentes sabores associados às duas culturas.
No sábado, a programação começou logo pela manhã, com um espetáculo da bailarina brasileira Bárbara Faustino, na Casa do Povo. Durante a tarde, o Largo Pascoal Coelho recebeu a apresentação da microgaleria de arte MAR, uma obra de Gonçalo Ribeiro, dando continuidade à programação artística do festival.
Antes do concerto mais aguardado da programação, segundo a organização, ainda houve tempo para outra experiência fora do habitual. O coletivo GIRA, constituído por mulheres emigrantes que celebram a cultura afro-brasileira, atuou no Cabeço da Igreja Velha, no alto de um monte que se encheu de público. Entre a música e a dança, várias pessoas acompanharam o samba, numa atuação que reuniu espectadores de diferentes idades.
À noite, foi a vez de Luca Argel, cantor e compositor brasileiro radicado em Portugal desde 2012. Com um repertório marcado por temas de intervenção e reflexão social, o músico atuou durante cerca de uma hora e meia na Praça da República, que se encheu de público para assistir ao concerto. Ao longo da atuação, Luca Argel fez várias referências ao processo de polarização que se tem vivido em Portugal, nomeadamente em torno da imigração e das questões sociais e políticas que lhe estão associadas.
O tema do machismo e do papel da mulher na sociedade também foi abordado pelo artista, que demonstrou preocupação com o regresso de algumas ideias que, segundo afirmou, foram combatidas no passado. Na perspetiva do músico, o atual ambiente político e o crescimento da direita radical em Portugal contribuíram para trazer novamente esses temas para o debate público.
O espetáculo não se ficou pelo samba e pela canção brasileira. Perto do final, Luca Argel revelou que a organização do Alentejo Heritage o tinha convidado a atuar ao lado do grupo de cante alentejano de Vendas Novas “Era Uma Vez o Cante”. A entrada do grupo juntou as sonoridades brasileiras às vozes do cante alentejano, num dos momentos de maior interação entre as duas tradições culturais ao longo do festival.

O festival encerrou no domingo, 27 de setembro, com a Lavagem de Nossa Senhora da Conceição de Cabrela, uma celebração inspirada na tradicional Lavagem do Bonfim, em Salvador da Bahia. O cortejo percorreu as ruas da aldeia desde o Largo Pascoal Coelho até à Igreja de Nossa Senhora da Conceição, onde teve lugar o momento simbólico da lavagem, encerrando três dias de programação dedicados ao encontro entre diferentes expressões culturais de Portugal e do Brasil.
Texto & Fotos: Pedro Barrelas