Coincidência ou desafio ao destino, a reabertura do Teatro Nacional acontece com a mesma obra que estava em cena na noite de 2 de dezembro de 1964, quando um violento incêndio destruiu praticamente todo o interior do edifício. Do fogo salvaram-se as paredes exteriores, o átrio de entrada, o salão nobre e o arquivo histórico, retirado à pressa por uma porta lateral. Perderam-se, entre outros elementos, o palco, a sala, o teto pintado por Columbano Bordalo Pinheiro e grande parte do guarda-roupa da Companhia Rey Colaço-Robles Monteiro.
O incêndio obrigou o Teatro Nacional a permanecer encerrado durante 14 anos, reabrindo apenas em 1978, após uma profunda reconstrução. Mais de seis décadas depois daquela noite, Macbeth volta agora à Sala Garrett, desta vez como a primeira peça a subir ao palco após três anos e oito meses de obras de requalificação.
Com encenação e tradução de Pedro Penim, o elenco junta nomes de peso da representação em Portugal. A história transporta-nos até à Escócia medieval, onde José Raposo veste a pele de um dos protagonistas, Macbeth, um herói de guerra escocês que, depois de ouvir a profecia de três bruxas de que um dia se tornaria rei, se deixa consumir pela ambição. Influenciado também pela mulher, acaba por cometer traição e assassinar o rei, assumindo posteriormente o seu lugar no trono. Ao seu lado está Lady Macbeth, interpretada por Bárbara Branco, uma das personagens mais fascinantes da literatura clássica, precisamente pela forma como desafia a relação de poder entre o homem e a mulher imposta pela sociedade da época. Ambiciosa e calculista, exerce uma forte influência sobre o marido, chegando a questionar a sua virilidade para o levar a cometer o crime que lhe abrirá caminho até ao trono.

O elenco conta ainda com nomes como Ana Coimbra, Ana Tang, Bernardo de Lacerda, Hugo Van Der Ding, João Grosso, José Neves, June João, Sandro Feliciano, Stela, Vítor Silva Costa.
Mais de quatro séculos depois de ter sido escrita, Macbeth continua, na visão de Pedro Penim, a encontrar paralelos com a sociedade contemporânea. Para o encenador, é precisamente nessa atualidade que reside um dos pontos centrais desta nova encenação: “Se há um macrotema no caminho de Shakespeare, é justamente esse fascínio do mal”.
Esse fascínio ganha forma sobretudo através de Macbeth e Lady Macbeth, duas personagens que Penim descreve como alguns dos vilões mais icónicos da literatura mundial. Contudo, a violência da obra não reside apenas na concretização dos crimes. “Macbeth é a personagem que imagina tudo antes de se concretizar”, salientou, lembrando que muitos dos acontecimentos violentos decorrem fora de cena, depois de já terem sido construídos através das palavras e da imaginação.
É também neste jogo entre atração e repulsa que surge a escolha de José Raposo para assumir o papel principal. Para Pedro Penim, colocar um dos atores mais acarinhados pelo público português na pele de Macbeth permite explorar precisamente a capacidade de sedução da personagem. “Não há ninguém que não goste de José”, afirmou, explicando que a escolha permite perceber “como muitas vezes nos deixamos seduzir, às vezes sem percebermos que está a acontecer”.
Apesar das ligações que estabelece entre a obra e a atualidade, Pedro Penim não pretende impor ao espectador uma interpretação única. A intenção passa por “deixar a peça respirar”, permitindo que cada pessoa encontre a sua própria leitura dentro das inúmeras possibilidades oferecidas pelo texto de Shakespeare.
Essa liberdade estende-se também à nova tradução. Para Penim, Macbeth não necessita de ser adaptado a um acontecimento ou período específico para permanecer atual. “O texto vai-se renovando a cada geração, vai continuando a dialogar com as várias gerações”, defendeu. É precisamente por isso que “cada geração e cada tempo vai interpretando e pondo em cena o Macbeth de uma maneira específica”.

Nesta versão, porém, existe um espaço que assume particular protagonismo: o próprio Teatro Nacional D. Maria II. Em vez de procurar uma reconstrução histórica dos palácios e lugares imaginados por Shakespeare, a encenação assume o teatro enquanto teatro, procurando recordar ao público que está “sempre perante um objeto teatral”.
A opção ganha um significado adicional por Macbeth marcar o regresso ao edifício do Rossio após três anos e oito meses de encerramento. Pedro Penim recordou a curiosidade que acompanhou as obras e as sucessivas perguntas sobre quando voltariam a abrir as portas, considerando esse interesse uma “sensação de posse” da instituição “muito legítima e muito saudável, porque ela é de facto nacional”.
A nova produção serve, por isso, também para revelar algumas das capacidades técnicas adquiridas durante a renovação. Entre as melhorias no som, na maquinaria e nas possibilidades do palco, Penim não esconde o entusiasmo com o resultado, chegando a comparar o renovado equipamento do Teatro Nacional a “um Rolls-Royce”.

Com uma temporada de oito semanas, Macbeth representa ainda a vontade de apostar em períodos mais longos de exibição no Teatro Nacional D. Maria II, numa tentativa de aproximar grandes produções de públicos mais abrangentes e prolongar a vida dos espetáculos em palco.
Estreia
Macbeth estreia a 18 de setembro e fica em cena até 31 de outubro. Os bilhetes podem ser adquiridos através do Teatro Nacional D. Maria II e da BOL.
Texto & Fotos: Pedro Barrelas