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Desporto, Futebol

O silêncio fez-se sentir

Crónica: Benfica 2-2 AC. Viseu

Na jornada inaugural da Liga Portugal Betclic, o Benfica não foi além de um empate este domingo, na Luz, frente ao recém-promovido Académico de Viseu.

A ausência de adeptos

A Autoridade para a Prevenção e o Combate à Violência no Desporto (APCVD) aplicou ao clube lisboeta a sanção de um jogo à porta fechada. Na origem da decisão esteve a utilização de artefactos pirotécnicos em cinco jogos da época 2022/23. O Benfica recorreu para o Tribunal da Relação de Lisboa, mas o recurso foi rejeitado.

A sanção não foi impedimento para milhares de adeptos encarnados receberem a equipa na entrada da estátua Eusébio e de assistirem ao jogo na parte exterior.

Independentemente da decisão de carácter legal, fica a dúvida no ar sobre se este tipo de sanções produz resultados práticos ou se, pelo contrário, acaba por penalizar milhares de adeptos que nada tiveram a ver com os comportamentos que estiveram na origem do castigo. O facto de a sanção resultar de acontecimentos que remontam à época 2022/23 levanta ainda outra questão: fará sentido aplicar um castigo desta natureza quatro temporadas depois?

O regresso

O Académico de Viseu, que conta com apenas quatro presenças no principal escalão do futebol português, regressou à elite 37 anos depois, tendo disputado pela última vez a Primeira Liga na temporada 1988/89.

Numa época de tremenda expectativa para as gentes de Viseu e de enorme importância para a cidade e para o distrito, a permanência na Primeira liga assume-se como o principal objetivo da direção.

O jogo

Quem teve a oportunidade de ver apenas a primeira parte do encontro terá certamente ficado boquiaberto com o resultado final. Os encarnados dominaram em toda a linha os primeiros 45 minutos, e a vantagem de apenas um golo que levaram para os balneários pareceu escassa. A falta de eficácia, aliada a uma dose significativa de azar, impediu que o domínio das águias se traduzisse numa vantagem mais expressiva ao intervalo.

Marco Silva tem implementado nos encarnados uma filosofia de maior pendor ofensivo, apostando na subida dos laterais para dar maior largura ao ataque, com o objetivo de criar superioridade em zonas interiores e permitir aos extremos aproximarem-se de Pavlidis, favorecendo combinações e a criação de espaços para o avançado finalizar.

Para este encontro, o treinador encarnado manteve o mesmo onze inicial utilizado na passada quinta-feira, frente ao Hearts. Numa estrutura tática de 4-2-3-1, o Benfica assumiu uma postura bastante ofensiva, com Dahl e Bah projetados nos corredores laterais, dando largura ao ataque e ajudando a empurrar o Académico para junto da sua área. Por dentro, Prestianni assumia um papel de desequilibrador, procurando trocar as voltas à defensiva beirã e criar espaços entre as linhas, aproximando-se de Pavlidis.

A equipa orientada por Bruno Pinheiro começou a partida algo nervosa e muito recuada no terreno, sem conseguir construir jogo para lá do seu meio-campo. O Benfica aproveitou estas fragilidades e não precisou de mais de dez minutos para passar para a frente do marcador. Ainda no meio-campo, Prestianni lançou Pavlidis em profundidade, e o grego, isolado, fez o 1-0 com toda a calma.

O que se seguiu foi uma maré de oportunidades desperdiçadas pelos encarnados. A primeira surgiu aos 22 minutos, quando Prestianni, num excelente domínio de bola, deixou para trás a defensiva viseense pela direita e, já dentro da área, rematou ao poste direito da baliza, numa jogada individual que merecia outro desfecho para o argentino. O segundo desperdício pareceu uma repetição do primeiro, mas, desta vez, a bola não embateu no poste, e sim na trave. Na sequência de uma assistência para Rafa Silva, o extremo conseguiu ultrapassar Ewerton e rematar. Contudo, viu Rúben Pereira cortar o esférico na hora H. Pavlidis aproveitou a sobra e, num segundo momento, rematou à barra da baliza.

O facto de o Benfica ir para o intervalo com apenas um golo de diferença não foi apenas por demérito próprio, mas também por mérito de Ewerton, que, já perto do fim do primeiro tempo, se esmerou para impedir o 2-0. Prestianni, que estava a ter uma noite a roçar a perfeição, dominou pelo lado esquerdo e, quando teve espaço, armou um remate bem colado à entrada da área. Para seu azar, viu Ewerton esticar-se e sacudir a bola para canto, naquela que será certamente uma das defesas da jornada.

No segundo tempo, as águias entraram a todo o ritmo, pressionando alto e sem deixar o adversário respirar. Contudo, encontraram um Académico de Viseu revigorado, com maior clareza defensiva e muito mais difícil de penetrar do que no primeiro tempo, procurando ainda explorar os erros dos encarnados em contragolpe.

O inesperado empate surgiu através de Rúben Pereira, ao minuto 55. Após a marcação de um pontapé de canto batido por Kahraman, o defesa subiu mais alto do que a defensiva encarnada e cabeceou para o 1-1.

Para desilusão dos adeptos que se encontravam no exterior do estádio, os fantasmas da época passada vieram ao de cima, depois de uma temporada marcada por onze empates, vários deles após os encarnados terem estado em vantagem.

Foi então que apareceu Prestianni. Dono e senhor da noite, vestiu a pele de caça-fantasmas e tratou de os afastar, menos de três minutos depois do golo que tinha restabelecido a igualdade. Numa jogada individual que dá gosto ver e rever, o argentino rasgou a defensiva do Académico pelo lado esquerdo e, já dentro da área, picou a bola para o 2-1.

O conjunto beirão manteve a cabeça fria mesmo em desvantagem e nunca desistiu do encontro, acabando por ser recompensado ao minuto 67. Numa das raras ocasiões em que chegou à área adversária, voltou a mostrar uma eficácia praticamente total. Robinho colocou a bola na área e André Clóvis, sem marcação, rematou para o 2-2.

Até ao final do encontro, as águias ainda dispuseram de algumas ocasiões de golo, mas o guardião viseense segurou sempre a igualdade no marcador, permitindo ao recém-promovido levar da Luz um ponto para Viseu.

Independentemente de o resultado final se ajustar ou não ao que aconteceu em campo, este início de temporada tem revelado um Benfica com maior poder ofensivo do que aquele demonstrado nas duas últimas épocas. No entanto, continuam evidentes lacunas no setor defensivo, que poderão vir a custar caro aos encarnados no decorrer da temporada.

O próximo jogo do Académico de Viseu será frente ao Santa Clara no Fontelo. O Benfica, por sua vez, viajará até Edimburgo para defrontar o Hearts, na segunda mão da eliminatória de acesso à Liga Europa.

Texto & Fotos : Pedro Barrelas

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