O desejo do presidente norte-americano em acabar a guerra entre a Ucrânia e a Rússia já não é novidade. É preciso recuar à campanha eleitoral de 2024 quando o magnata nova-iorquino afirmava repetidamente que a guerra na Ucrânia nunca teria acontecido se fosse presidente e bastariam apenas 24 horas para a terminar através de uma conversa telefónica com Vladimir Putin, em caso de vitória. A simplicidade em diplomacia nunca trouxe grandes resultados e neste caso não foi exceção. Um ano e seis meses após a tomada de posse, o conflito continua sem uma solução negociada, apesar dos esforços do presidente norte-americano em conversar com os dois intervenientes.
Movimento MAGA
O movimento MAGA (Make America Great Again), criado por Donald Trump na sua primeira campanha eleitoral em 2015, tornou‑se um dos símbolos centrais da sua presidência. Assente numa retórica conservadora nos costumes e protecionista na economia, não foi surpreendente que figuras de maior influência, como Matt Gaetz, Jim Jordan ou Marjorie Taylor Greene, manifestassem desde o início o seu desagrado perante o apoio financeiro concedido pela administração Biden à causa ucraniana, nomeadamente à sua defesa militar.

Persona non grata
Em fevereiro de 2025, Volodymyr Zelensky reuniu‑se com o presidente norte‑americano e com vários membros da administração, incluindo o vice‑presidente J.D. Vance, na Sala Oval, num encontro aberto à comunicação social. Naquele que seria um dos primeiros contactos formais entre os dois líderes — com Zelensky a tentar assegurar garantias de segurança contra a Rússia em troca da cedência da exploração de minérios raros em solo ucraniano aos Estados Unidos — Trump manteve‑se inflexível e adiou a assinatura do acordo relativo às terras raras. Durante a reunião, acusou o presidente ucraniano de “brincar com a terceira guerra mundial e com milhões de vidas”. Vance interveio de seguida, afirmando que Zelensky “nunca tinha agradecido aos Estados Unidos pelo apoio já concedido”. A animosidade gerada, transmitida em direto para todo o mundo, marcou a posição da nova administração em relação ao conflito e sinalizou uma mudança estratégica profunda na política externa americana.

Cimeira no Alasca
A mudança estratégica da administração Trump não se limitou aos bloqueios no congresso relativamente ao apoio militar à Ucrânia. Rapidamente evoluiu para uma aproximação direta a Vladimir Putin. Os dois presidentes realizaram várias chamadas telefónicas nas quais discutiram possíveis caminhos para pôr fim ao conflito, e Trump, em declarações à comunicação social, manteve sempre um tom de otimismo, garantindo que um acordo estaria “para breve”.
Na sequência destas conversas, os dois líderes decidiram encontrar‑se em território neutro, escolhendo o Alasca — uma opção que, pela proximidade geográfica à Rússia, foi bem recebida por Putin. Num cenário de receção de grandeza militar, com vários caças e equipamento espalhados ao longo do aeroporto, o presidente russo foi recebido com passadeira vermelha pelo homólogo norte‑americano, numa encenação que levantou dúvidas entre analistas políticos. Seria uma demonstração de força destinada a intimidar indiretamente Moscovo, ou uma exibição calculada para impressionar o seu interlocutor?
A cimeira decorreu à porta fechada, mas no final houve espaço para uma conferência de imprensa conjunta, ainda que muito breve. Ambos os líderes descreveram o encontro como “produtivo” e “construtivo”, sublinhando que tinham identificado pontos de convergência e comprometendo‑se a manter o contacto para a continuação das negociações.

A posição europeia
A liderança europeia não viu com bons olhos esta aproximação americana à Rússia, nem as críticas que Trump ia deixando à forma como os europeus estavam a lidar com a guerra. O republicano afirmou mesmo que a Europa precisava de abrir um canal de conversações com Moscovo e que os pacotes de financiamento militar destinados à Ucrânia apenas contribuíam para escalar o conflito, em vez de o aproximar do fim.
A presidente da Comissão Europeia, num raro momento de unificação com os restantes parceiros europeus, respondeu com firmeza. Num discurso no Parlamento Europeu, Ursula von der Leyen impôs limites claros a qualquer acordo de paz resultante das negociações bilaterais entre Washington e Moscovo — negociações nas quais os europeus nunca foram considerados. Afirmou que qualquer acordo que redesenhasse as fronteiras ucranianas não seria reconhecido pela União Europeia e que tal cedência “abriria a porta a novas guerras” no continente.

Estagnação negocial
Com a economia russa em queda e o custo de vida a disparar devido ao isolacionismo e às sucessivas vagas de sanções internacionais, a abertura de Vladimir Putin ao diálogo foi vista por muitos analistas como uma manobra calculada. A aproximação ao presidente norte‑americano permitia-lhe criar falsas expectativas e com isso, ganhar tempo no terreno e, simultaneamente, testar a disposição de Washington para aliviar a pressão económica sobre Moscovo. No final, as negociações não avançaram e Trump acabou por admitir que Putin “o estava a fazer perder tempo”, revelando a frustração crescente dos americanos com o impasse.
Mudança de atitude
Ao longo de 2026, a opinião dentro da ala MAGA começou a mudar em relação à posição americana no conflito. Muitas das vozes que anteriormente tinham criticado o presidente Biden pelos pacotes de ajuda militar à Ucrânia passaram a considerar que Putin nunca procurou um acordo de paz. Para vários influencers e congressistas republicanos, tornou‑se evidente que tinham sido enganados pela propaganda russa, acreditando numa disposição para negociar que nunca existiu.
Longe de ser um tema consensual dentro do Partido Republicano e, sobretudo dentro do movimento MAGA, várias vozes internas admitiram que o presidente norte‑americano começou a ajustar a sua posição após começar a perceber o ruído destas críticas.
Lindsey Graham
Volodymyr Zelensky viajou esta terça‑feira para os Estados Unidos para marcar presença no funeral de Lindsey Graham, senador republicano que sempre apoiou a causa ucraniana dentro do partido, tendo Zelensky chegado a apelidá‑lo de “amigo da Ucrânia”. Graham defendia que a única forma de a Rússia se sentar à mesa das negociações de forma séria seria garantir que a Ucrânia dispusesse de capacidade militar suficiente para travar o avanço russo e impor custos reais ao Kremlin.
O senador republicano, que faleceu devido a uma doença súbita, deixou um vazio significativo na ala do Partido Republicano que defendia uma postura mais assertiva face à Rússia. Para além da relação de confiança que mantinha com Trump, Graham foi decisivo em temas concretos: pressionou Washington a conceder a Kiev a licença para fabricar interceptores do sistema Patriot, uma medida que considerava essencial para reforçar a capacidade defensiva ucraniana.
Dias antes de falecer, Lindsey Graham viajou para Kiev, onde se encontrou com o presidente ucraniano para anunciar que tinha alcançado um entendimento com a Administração Trump destinado a desbloquear o pacote de sanções que permanecia travado no Congresso. Entre as medidas previstas estavam a apreensão de ativos russos para financiar a reconstrução da Ucrânia, a aplicação de tarifas e sanções a países que continuassem a comprar petróleo russo e a concessão a Kiev da licença para fabricar interceptores do sistema Patriot.

Econtro de Trump e Zelensky
Donald Trump encontrou‑se esta terça‑feira com o presidente ucraniano na Casa Branca, descrevendo o encontro como “muito positivo e produtivo”. A aproximação entre os dois líderes tornou‑se mais evidente nos últimos meses, depois de, no ano passado, Trump ter criticado abertamente Vladimir Putin por ter dado a entender que estava disposto a avançar para um acordo de paz e, no momento seguinte, ter ordenado novos bombardeamentos sobre Kiev. Essa mudança de tom, abriu espaço para uma relação mais cooperativa entre Washington e Kiev.
Na Sala Oval, os temas centrais da reunião foram a venda de drones ucranianos aos Estados Unidos, um acordo cujo lucro será canalizado para o sistema de defesa de Kiev — e o esforço para reabrir as conversações diplomáticas com Moscovo. Zelensky recordou que já desafiou Putin para um encontro, mas continua sem resposta, sublinhando que a Ucrânia permanece disponível para dialogar desde que a Rússia demonstre vontade real de negociar.
Zelensky regressa a casa certamente mais aliviado, mas continua preocupado com o bloqueio no Congresso ao pacote de 400 milhões de dólares aprovado no ano passado com apoio bipartidário. Trump já deixou claro que só tem intenção de avançar com essa verba em 2029, o que poderá representar um entrave significativo para a Ucrânia num momento em que o país depende de financiamento externo para manter o esforço de guerra e reforçar a sua defesa.

Texto: Pedro Barrelas