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Música

RAYE: a afirmação de uma artista em Montreux

Montreux Jazz Festival

Reflexão de uma carreira 

O lugar onde se nasce não define a nossa vivência, mas influencia a forma como pensamos o mundo e, especialmente, como o interpretamos. Rachel Agatha Keen, mais conhecida por RAYE, é um desses exemplos puros de como o uso dessas ferramentas de comunidade bem trabalhadas pode tornar-nos algo melhor e entrar na sensibilidade de quem nos assiste.

Nascida em 1997, no sul de Londres, mais especificamente no bairro de Tooting, a artista, na altura menina, cresceu numa família de classe média inserida numa comunidade rica em diversidade cultural. Ali, viu de perto que o desejo de uma vida melhor advém, de forma inequívoca, do esforço que cada um aplica para criar a sua própria oportunidade. A linearidade da expressão não é, de forma alguma, uma afirmação absoluta, mas transforma-se numa dúvida carregada de esperança de como o mundo devia ser.

Foto: Emilienltim

 A contemporaneidade trouxe mudanças profundas à forma como a música é criada e semeada no interior de quem a ouve, com as indústrias a valorizarem o espetáculo e a descartarem a arte no seu todo. No passado a generalidade dos géneros musicais já criados (havendo excepções), tinha origem nas comunidades mais desfavorecidas, onde a paixão e a sonoridade eram algo verdadeiro, sentido e com uma herança cultural subjacente. Essa arte chegava às elites como um produto intocável, sem desvirtuar a forma e o sentimento da sua génese. Era dessa forma, um tanto patriarcal, que todos a ouviam, não necessariamente da mesma forma, mas seguramente ao mesmo ritmo. Nos dias que correm, é raro o produto que chega ao ouvinte sem ser alterado. Sem cair na redundância da comparação, as elites continuam a receber essa sonoridade, embora o conceito de elite musical tenha ganho uma abrangência mais vasta com a chegada do streaming. Contudo, a grande diferença em relação ao passado é que já não se ouve com a mesma virtude, dada a mudança imposta pelos mercados à importância de como a música deve ser vista e não ouvida e sentida.

A apropriação cultural que a indústria musical acarreta vai buscar a verdade, a dor e a autenticidade a bairros como Tooting e a artistas como RAYE, transformando-as em produtos passageiros onde a intemporalidade já não se veste a rigor. A grande diferença desta artista é que não se subjugou a essa indústria, chegando mesmo a lutar contra ela para conquistar um lugar onde ser ela mesma bastava.

Concerto em Montreux

A artista britânica abriu as celebrações da 60.ª edição do Montreux Jazz Festival, a 3 de julho, no Auditório Stravinski, com um espetáculo de duas horas e um quarto que deixou marca profunda em todos os presentes. As cerca de sete mil pessoas que conseguiram lugar na sala não saíram como entraram: RAYE transformou o espaço, a noite e, de certa forma, cada espectador.

Foto: Marc Ducrest

O cenário criado para o concerto reforçava a proximidade que RAYE procura estabelecer com o público. O palco octogonal e rotativo, rodeado por espectadores, transformava a sala num espaço onde o intimismo assumia o papel principal. A iluminação reduzida, usada com precisão quase cinematográfica, tornou‑se um elemento central da atuação, lembrando que, por vezes, a força de um concerto reside menos no espetáculo e mais na voz que o sustenta. 

“Oscar Winning Tears” foi o tema escolhido do novo álbum da cantora, This Music May Contain Hope, para abrir o concerto. Num palco ainda despido, RAYE entrou sozinha, quase a cappella, num momento de vulnerabilidade intensa que definiu de imediato o tom emocional da noite.

Como já é hábito, a cantora apresentou‑se com uma orquestra de 19 músicos e duas coristas, elevando de imediato a fasquia nos temas que se seguiram. As homenagens foram um dos momentos mais marcantes do espetáculo, com arranjos próprios que revisitavam figuras essenciais da história de Montreux: Nina Simone, com “Who Knows Where The Time Goes”; Prince, numa leitura intensa de “Purple Rain”; e Miles Davis, através de improvisações sobre “Blue in Green”, entre outros tributos que reforçaram a ligação da artista às raízes do jazz e da soul.

Foto: Thea Moser

Uma das grandes surpresas da noite surgiu ainda na primeira parte do concerto, quando Mark Ronson, guitarrista e vencedor de sete Grammys, subiu inesperadamente ao palco. Juntos, apresentaram uma versão jazz‑funk de “Uptown Funk”, seguida de “Suzanne”, de Leonard Cohen, com RAYE a assumir a voz num registo profundamente emotivo. O público reagiu de imediato, rendido à química entre os dois artistas, e agradeceu a surpresa com um aplauso prolongado.

Depois de presentear o público com algumas das músicas mais emblemáticas do seu novo álbum, surgiu o segundo grande convidado da noite: Alicia Keys. Desde a infância, como a própria RAYE fez questão de recordar — Alicia foi uma das suas maiores inspirações para seguir uma carreira musical, e cantar ao seu lado continua a ser um momento profundamente emotivo. A solo, Alicia Keys introduziu “If I Ain’t Got You”, num registo íntimo ao piano, ao qual RAYE se juntou a meio da canção. O anfiteatro reagiu de imediato, rendido à união das duas vozes, num dos momentos mais celebrados de toda a noite.

Foto: Thea Moser

A catarse do concerto surgiu já perto do final, com “Goodbye Henry”, quando a artista dedicou o tema ao avô, falecido no início de 2026. A britânica abriu o coração em pleno palco, visivelmente emocionada, num momento de humanidade rara e de beleza absoluta, o mais íntimo e comovente de toda a noite.

Depois da emoção devastadora de “Goodbye Henry”, RAYE preparou o público para uma última explosão de energia. O palco começou a rodar lentamente, a orquestra ganhou corpo e as luzes que até então contidas, abriram finalmente o espaço. Foi então que a artista lançou “Where Is My Husband!”, num arranjo expansivo, teatral e cheio de humor, que transformou a sala numa celebração coletiva.

O momento musical vivido em Montreux revelou como uma artista, quando verdadeiramente livre, consegue expandir de forma natural e empática tudo aquilo que sente. Essa é a grande lição de RAYE para o mundo.

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Texto: Pedro Barrelas

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